26.10.05

NERGAL (...) O profeta vivo dentro de uma cova e escorrendo em esferas alheias � sua pr�pria individualidade tanto no espa�o quanto no tempo, incorporando � sua experi�ncia acontecimentos que, lembrados e relatados � luz clara do dia, deviam propriamente ser postos na 3� pessoa. Mas que queremos dizer com esse "propriamente"? Ser� o eu de uma pessoa uma coisa aprisionada dentro de si mesma, rigorosamente enclausurada dentro dos limites da carne e do tempo? Acaso muito dos elementos que o constituem n�o pertencem a um mundo que est� na sua frente e fora dele? A id�ia de que cada pessoa � ela pr�pria e n�o pode ser outra n�o ser� algo mais do que uma conven��o que arbitrariamente deixa de levar em conta as transposi��es que ligam a consci�ncia individual � geral? Individualidade aberta (imita��o, sucess�o). Dans un realisme de la rivage: Ap�s cagar n�o limpe o cu com gazeta esportiva que Pel� entra com bola e tudo. - Waly Sailormoon, "Apontamentos do Pav Dois", Me segura qu'eu vou dar um tro�

se os poetas fossem menos bestas

SE OS POETAS FOSSEM MENOS BESTAS Se os poetas fossem menos bestas E se fossem menos pregui�osos Fariam todo mundo feliz Para poderem tratar em paz De seus sofrimentos liter�rios Levantariam casas douradas Cercadas por enormes jardins E �rvores cheias de colibris De rustiflautas e de aqualises De pardongros e luziverdes De plumuchas e de picapratos E de pequenos corvos vermelhos Que soubessem tirar nossa sorte Haveria grandes chafarizes Jorrando luzes de mil matizes N�o faltariam duzentos peixes Do crocantusco ao empedraqueixo Do trilibelo ao falamumula Da suazmina ao rara quirila E do guardavela ao canifeixe Provar�amos um ar fresqu�ssimo Perfumado pelo odor das folhas Comer�amos quando quis�ssemos E trabalhar�amos sem pressa A arquitetar escadarias De formas nunca dantes sonhadas Com t�buas raiadas de lil�s Lisas como s� ela sob os dedos Mas os poetas s�o muito bestas Para come�ar, eles escrevem Ao inv�s de p�r a m�o na massa Isso lhes traz profundos remorsos Que levam consigo at� a morte Radiantes por sofrerem tanto O mundo os aclama com requinte E os esquece no dia seguinte Se a pregui�a n�o fosse mania Teriam fama por mais um dia. - Boris Vian, trad. Ruy Proen�a.

N`um Dia em Que a Senhora Dormia

N`um dia em que a Senhora dormia, o Senhor sacudia sua criada, e ela, que ao dan�ar sorria, a bunda rebolava bem safada. Enfim, a vaidosa disse-lhe feliz: "Quem � melhor nesta balada, Senhor, a Senhora ou eu?" "Tu", disse ele com ar de juiz. E ela: "Puxa, creio no que respondeu, pois � o que toda a gente me diz!" - Mellin de Saint-Gelais, trad. Andityas Soares de Moura. � Boa Teta e outros quatro licenciosos poemas da Fran�a renascentista. Ed. Cris�lida.

21.10.05

diga sim ao reverendo

O ECO DE OURO Espera! H� um, sim eu sei de um (Sil�ncio agora!) S� que n�o se sente ao sol, N�o � vista do sol solerte, � tinta do sol alto ou trai�oeiro o h�lito do ser terrestre, Aqu�m al�m existe ah bem quem! um s�, Um. Sim, sei dizer qual a chave, conhe�o tal recanto, Onde tudo o que se ama e some de n�s, tudo o que � novo e vai-se esvaindo de n�s, s�i ser suave de n�s e s�bito finado, findo, desfeito, Desfeito, finito, findo, e todavia cara e raramente suave De n�s, a ruga-�gua-sulcada, mais-que-manh�-perfeita face, A flor do belo, velo do belo, muito muito apta a, ah! voar, Nunca mais voa, atada pela mais verde verdade Ao seu melhor ser e � flor da mocidade: � uma sempre-viva de, Oh � uma toda-mocidade! Venham, pois, ares e olhares, trejeitos, tran�as, dons de donzelas, garbo e gala e gra�a, Ares fatais, olhares infantis, donaires de donzela, trejeitos suaves, tran�as soltas, tran�as longas, tran�amores, garbig�rrulas, galgas lagas, gentilgra�a - Resigna-os, designa-os, sela-os, solta-os, move-os com sopro E com suspiros que se alteiam, altaneiros suspiros liberta- Os; o belo-em-espectro, liberta-o, desde logo, muito antes que a morte de- Volva o belo, e o belo, belo, belo volva a Deus, o eu do belo e o ser do belo. V�, nem um fio de cabelo, nem um c�lio, nem um s� c�lio cai; cada cabelo �, cabelo da cabe�a, computado. Mais; o que sutis larg�ramos em duro e mero molde Ter� vindo e vingado e vagado e vogado com o vento durante o enquanto que nos adorme�a, Daqui, dali, confundindo as cemcurvas de um cerebrochumbo Durante o enquanto, o enquanto em que nos esque�amos. Oh, ent�o por que curvos seguimos? Oh por que sermos t�o cavos no cora��o, t�o medo-murchos, medo-mortos, t�o fartos, t�o fraudados, t�o cansados, t�o confusos, Quando a coisa que livres renunciamos � guardada com o mais caro cuidado, Mais caro cuidado guardada do que a poder�amos ter guardado, guardada Com muito maior cuidado (e n�s, n�s a perder�amos), mais puro, mais caro Cuidado guardada. - Onde guardada? Diga-nos onde guardada, onde. - L� longe. - T�o alto assim! Seguimos, j� seguimos. - Longe, sim, longe, longe, Longe. - G.M. Hopkins, trad. Augusto de Campos.

20.10.05

das tr�s portas que h� � sua frente, voc� olhar� somente pelo buraco da fechadura da segunda, posto que as outras duas n�o possuem nenhum orif�cio. para respira��o ou regalo da alma. voc� ver�: brancos destro�os de um esqueleto, em que se ler� uma triste hist�ria de amor na ainda viva tinta vermelha. algumas tiras da saia de uma donzela peluda. restos de uma amor que viu o circo pegar fogo. uma caixa de f�sforos vazia, com os dizeres: CUIDADOFR�GIL. um chap�u de napole�o, mofado. lembran�a das bodas de certa av�. caixinhas de m�sica, em que se pode ler, em seu anverso: BY PANDORA. uma lagarta listrada desbotada: um f�ssil. [n�o necessariamente nessa ordem]
ricardo aleixo deveria fazer um cd comercializ�vel com as dele composi��es que foram musicadas. conhe�o poucas, mas todas �timas. digo isso porque estou com o refr�o de "mercedes benz" na minha cabe�a desde o momento em que ouvi patr�cia ahmaral cantando. a m�sica � de gil am�ncio.

16.10.05

f�rum das letras

de 10 a 15 de novembro, durante o feriad�o, estarei l� no f�rum das letras, evento organizado pela universidade federal de ouro preto. estar�o l� tamb�m roberto piva, ad�lia prado, fabr�cio carpinejar, alice ruiz, jo�o adolfo hansen, lygia fagundes telles, nelson de oliveira, mar�al aquino, m�rcia tiburi, luiz ruffato, maria esther maciel, cl�udio giordano, mamede jarouch, entre muitos outros - al�m do POESIAhoje, que eu n�o posso esquecer de citar. ent�o, venham todos, venham todos: quem estiver de sapato n�o sobra. d�em uma olhada no site: f�rum das letras 2005

psiu

� impressionante como sempre ouvi falar bem do psiu po�tico de montes claros. pelo que pintavam, o evento continuava com todo o f�lego mesmo com mais de quinze anos. pois bem. fui, vi, participei e n�o gostei. tudo muito mal organizado. sem falar na falta de crit�rio na escolha dos participantes e homenageados. misturaram jorge salom�o, vera casa nova e guilherme mansur com denisys, a mulher que goza no poema, e o homem que faz poemas para cantar as mo�as - e, talvez por isso, se intitula man� do caf�. parece que todo mundo tem que falar bem do evento porque foi convidado. tem que fazer o jogo e ficar bem com todo mundo. �s favas, como dizia de gaulle.
CARNAVAL DO GERALDO Olha o o Geraldo est� chegando Est� morrendo de vontade de Entrar no carnaval Diz: "Carnaval n�o � pra homem" Voc� est� louco, Geraldo Carnaval vai todo mundo Veja o o Paulo, veja o Pedro Todo mundo dando for�a Pra voc� entrar tamb�m E voc� n�o vai... N�o vou Olha o Geraldo, pessoal Ele j� est� dentro e n�o percebe Olha ele sambando l� na porta Ah... ah... ah... ah... Tangtchikatangtchikatangtchika... N�o vou, n�o quero, Eu fico envergonhado Fica todo mundo olhando Todo mundo reparando Todo mundo me secando Ele fica envergonhado Porque todo mundo olha Porque todo mundo p�ra Porque todo mundo seca - Luiz Tatit e hoje o geraldo saiu de vez do carnaval. ficou ainda uma semana pra gente poder se despedir dele. ficou uma semana no vai-n�o-vai. coisa dele. porque ele j� fez muita burrada, claro. j� fiquei com muita raiva dele, mas com o tempo fui vendo que n�o tinha como ficar com raiva do geraldo... ele contava umas hist�rias �timas, tiradas n�o se sabe de onde: - "toda unanimidade � burra", j� dizia o de gaulle. ou - porque o neg�cio come�ou assim: o fara� botava os escravos pra construir as pir�mides e pagava com um punhado de sal. teve uma hora que eles se revoltaram. e a� nasceu o PT. ele era o t�pico mineiro carioca. e tinha um humor totalmente nonsense. acho que s� agora entendo aqueles vel�rios com festa. porque o geraldo n�o ia querer ver ningu�m triste n�o. ia � querer comemorar tomando cerveja, ouvindo m�sica e contando aquelas mentiras deslavadas, fazendo todo mundo rir. agora ele deve � estar l� em cima, rindo dessa fuzarca toda. vendo que ele estava certo, que a gente n�o leva mesmo nada dessas coisas pelas quais todo mundo sempre briga e fica triste, e infeliz enquanto est� aqui.

7.10.05

herberto helder. porque quando o leio, tenho a sensa��o de que ningu�m, nunca mais, deve se atrever a escrever o que quer que seja. eu, por exemplo: n�o escrevo nem bilhetes mais.
MULHERES CORRENDO, CORRENDO PELA NOITE.
Mulheres correndo, correndo pela noite. O som de mulheres correndo, lembradas, correndo como �guas abertas, como sonoras corredoras magn�lias. Mulheres pela noite dentro levando nas patas grandiosos len�os brancos. Correndo com len�os muito vivos nas patas pela noite adentro. Len�os vivos com suas patas abertas como magn�lias correndo, lembradas, patas pela noite viva. Levando, lembrando, correndo. � o som delas batendo como estrelas nas portas. O c�u por cima, as crinas negras batendo: � o som delas. Lembradas, correndo. Estrelas. Eu ou�o: passam, lembrando. As grandiosas patas brancas abertas ao som, � porta, como c�u lembrando. Crinas correndo pela noite, len�os vivos batendo como magn�lias levadas pela noite, abertas, correndo, lembrando. De repente, as letras. O rosto sufocado como se fosse um abril num canto da noite. O rosto no meio das letras, sufocado a um canto, de repente. Mulheres correndo, de porta em porta, com len�os sufocados, lembrando letras, levando len�os, letras - nas patas negras, grandiosamente abertas. Como se fosse abril, sufocadas ao meio. Era o som delas, como se fosse abril a um canto da noite, lembrando. Ou�o: s�o elas que partem. E levam o sangue cheio de letras, as patas floridas sobre a cabe�a, correndo, pensando. Atiram-se pela noite com o sonho terr�vel de um len�o vivo. E v�o batendo com as estrelas nas portas. E sobre a cabe�a branca, as patas lembrando pela noite dentro. O rosto sufocado, o som abrindo, muito lembrado. E a cabe�a correndo, e eu ou�o: s�o elas que partem, pensando. Ent�o acordo de dentro e, lembrando, fico de lado. E ou�o correr, levando grandiosos len�os contra a noite com estrelas batendo nas patas como magn�lias pensando, abertas, correndo. Ou�o de lado: � o som. S�o elas lembrando de lado, com as patas no meio das letras, o rosto sufocado correndo pelas portas grandiosas, as crinas brancas batendo. E eu ou�o: � o som delas com as patas negras, com as magn�lias negras contra a noite. Correndo, lembrando, batendo. - A m�quina l�rica, que tem tamb�m o belo poema "Em Marte aparece a tua cabe�a -"

4.10.05

noite do griot

dentro das comemora��es dos dois anos do centro cultural casa �frica, a noite do griot traz o m�sico, compositor e poeta waldemar euz�bio com o espet�culo "balaio", um show ac�stico com viol�o e vozes, can��es e trilhas sonoras compostas para o teatro, al�m de leitura de poemas e textos do livro de contos "achados". participa��o especial de gabriela pilati e valmira euz�bio. data: quarta-feira, 05 de outubro hor�rio: 21 horas. local: centro cultural casa �frica rua leopoldina, 48 - bairro santo ant�nio 3344-1803 ingressos a R$ 10,00 ........................ n�o percam, n�o percam. waldemar euz�bio � o que h�

2.10.05

n�o desperteis nem perturbais o amor, antes que ele o queira (c�ntico dos c�nticos)
j� que sentir vem antes quem prestar aten��o � sintaxe das coisas nunca te beijar� completamente; ser totalmente louco quando h� primavera meu sangue aprova, e beijos s�o melhor destino que sabedoria dama eu juro por todas as flores. n�o chores - o melhor gesto do meu c�rebro � menos que o tremer de tuas p�lpebras que diz que somos um para o outro: ent�o ri, sem medo, em meus bra�os pois a vida n�o � nenhum par�grafo. e a morte (eu acho) n�o � nenhum par�ntese - e.e. cummings, Is 5. -------------------
"A morte n�o � nenhuma solu��o, mas pode ajudar a encontrar solu��es. Quando os sentidos est�o confusos, a morte traz um esclarecimento. Se a gente est� perdido numa floresta e corta alguma �rvore, isso constitui sempre uma dire��o na qual se pode ir." - Godard, "Carta de Princ�pios".

1.10.05

c a o s m o s e

[seguindo o conselho que o ter�a! me deu na quarta] #1 nove da manh�, quarta-feira. ponto de �nibus. l� da esquina vem um quase mendigo. vou matar essa desgra�ada! olhei a situa��o toda. o cara vociferava, parava e olhava o copo descart�vel que carregava. voltava a andar e repetia o ciclo. chegou perto de mim dizendo, claro, que ia matar a desgra�ada. - porque � um absurdo, voc� n�o acha? o cara que n�o tem dinheiro pra pagar dois, tr�s reais numa pinga, tem � que beber essas de setenta centavos. olha�: t� bebendo isso sabendo que � �lcool puro. - ... - porque voc� t� sabendo, n�? est�o adulterando o �lcool das bebidas. tem gente morrendo por a� disso. a� cheguei e pedi pra mulher a cacha�a, e ela me deu isso. se o cabra toma isso todo dia, morre. t� bebendo e sabendo que vou morrer. n�o � um absurdo? - �... - ent�o. isso aqui t� adulterado. e eu vou l� no minist�rio p�blico reclamar. eu vou l�. vou sim. voc� sabe onde fica o minist�rio p�blico? como � que eu fa�o pra reclamar? isso vai acabar matando gente. - olha, acho que o senhor tem que procurar o procon primeiro... - ah, �? e onde � o procon? - tem um na assembl�ia... - t�. vou l� sim. obrigada, viu?... #2 duas quartas-feiras depois. oito e meia da noite. eu estava dando aula, falando da poesia dos anos 1970, com o "me segura qu'eu vou dar um tro�o" nas m�os. est�vamos lendo o poema que est� na contracapa do livro. o da terceira margem do rio. os alunos j� tinham descoberto volumes f�licos no p�o de a��car: "ah... capital proibida do amor... t� sacando..." e faziam piadinhas com o tro�o (entendido por eles como o of, como diria hilda hilst) que o waly tinha dado. para quem? - who knows? nota: dou aula num cursinho que fica no interior de um templo dos adventistas do s�timo dia. de repente ouvi um "com licen�a" muito enf�tico. vi um senhor na porta da sala. maleta numa m�o e um peda�o de livro em outra. era um quase mendigo. foi entrando. - irm�os, com licen�a. passei dez anos da minha vida preso, mas encontrei o caminho do senhor e n�o fa�o mais essas coisas. estou aqui, pedindo uma ajuda pra eu comprar um prato de comida. estou quase vendendo a minha b�blia por dois e noventa. algu�m pode me ajudar? eu vim aqui porque eu n�o ia atrapalhar o culto... - ... pois �. mas o senhor atrapalhou uma aula. ele ficou todo sem jeito, foi saindo da sala... falei pra ele esperar, porque as meninas iam dar uma ajuda pra ele etc. ele parou na porta da sala: - mas � aula do qu�? teologia? - quase. literatura. - ah, vai me falar que t� dando aula de literatura dentro da igreja? � literatura b�blica, n�? - mais ou menos. um dos alunos: - n�o, tem nada de b�blia aqui n�o. n�o me contive: - ah... ent�o voc�s v�o me falar que salom�o n�o � b�blico?... como n�o?
a exposi��o quando n�o estamos distra�dos est� muito legal. n�o s� gravuras e fotografias: mais al�m. d� pra se divertir � be�a l�. se puderem, vejam e brinquem. no pal�cio das artes. at� 18/10.