as cartas de amor
9.10.1929
Terrivel B�b�:
Gosto das suas cartas, que s�o meiguinhas, e tamb�m gosto de si, que � meiguinha tambem. E � bonbon, e � vespa, e � mel, que � das abelhas e n�o das vespas, e tudo est� certo, e o B�b� deve escrever-te sempre, mesmo que eu n�o escreva, que � sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguem gosta de mim, e tambem porque � que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princ�pio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactid�o e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse l� escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e o ponto final at� recome�ar, e porque � que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um individuo com ventas de contador gaz e express�o geral de n�o estar alli mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e � de nascen�a, que � como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a B�b� fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma cren�a, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece imposs�vel ser escripto por um ente humano, mas � escripto por mim
Fernando
diretamente com o sentido
apropria��es imprevis�veis
operam processos
- maneiras novas (ligadas ao objeto), fragmento de texto te�rico do poema processo
30.8.05
BELLADONA, LADY OF ROCKS
voc� pode mexer as quatro cabe�as
sem que elas tragam algum malef�cio
sem que elas exalem o cheiro terroso
das ra�zes
voc� pode mexer com as quatro cabe�as
e ocult�-las sob o len�ol
debaixo das telhas
voc� pode espremer as quatro cabe�as
e fazer com que escorra seu caldo grosso
para dar de beber aos estranhos
para dar de beber � fam�lia
voc� pode dan�ar sobre as quatro cabe�as
sem que sintam sua falta no Jantar de Bodas
sem que sintam sua falta
depois voc� se tranca no quarto
e p�e um disco na vitrola
- geraldo eduardo carneiro
* pro ren�. e pra mim.
28.8.05
A la p�che des coeurs
A la p�che des coeurs, je ne veux plus aller
Je ne veux plus, ma m�re
Y en a trop de douleur quand l'amour s'envoler
Et laisser pauvre gars qui pleure
Ma cocotte elle est partie
Avec un vilain bonhomme
Je suis seul toute la nuit
Pas possible de faire un somme
A la p�che des coeurs, je ne veux plus aller
Je ne veux plus, ma m�re
Y en a fini de bonheur quand l'amour s'envoler
Et laisser larmes am�res
Au bistro d'oncle Fernand
C'est l'calypso qui commence
Je vais passer un instant
Mais je resterai sur mon banc
A la p�che des coeurs, je voulais plus aller
Seigneur la belle fille
Elle a les l�vres roug' et des grands yeux qui brillent
Je crois pas que je la connais
Voulez-vous danser, mam'zelle
Pour consoler un pauvre homme
Mais monsieur je suis pucelle
Mamoiselle, soyez bonne
A la p�che des coeurs, je voulais plus aller
Mais vous �tes tr�s jolie
Et si je vous le dis ce n'est pas un p�ch�
C'est la v�rit�, ma mie
Suivez-moi sous les palmiers
Mon Dieu quelle jolie robe
Il vaudrait mieux l'enlever
Pour ne pas risquer d'la g�ter
A la p�che des coeurs, je ne veux plus aller
Mais dites-moi, friponne
O� vous avez trouv� ces beaux petits t�t�s
Et ce corps qui s'abandonne
Donnez un baiser, ma mie
Pour faire plaisir au pauvre homme
Restons l� toute la nuit
Ma douleur elle est partie
A la p�che des coeurs, je ne veux plus aller
Car j'ai fait bien belle prise
Elle vient d'enlever sa petite chemise
Et je vais me r�galer...
Et je vais me r�galer...
Et je vais me r�galer...
- do boris vian
23.8.05
ter�a pat�tica
"Eu escrevo movida por uma compuls�o �tica, a meu ver, a �nica importante para qualquer escritor; a de n�o pactuar, n�o transigir com a mentira que nos circunda. Essa � uma atitude visceral, que parte da alma, da mente, do cora��o do escritor. O escritor � aquele que diz 'n�o', n�o participa do engodo geral armado para ludibriar as pessoas!"
- Hilda Hilst, em entrevista a Leo Gilson Ribeiro
18.8.05
lez inssondiable Mjzth�re de La Pozte
andei mexendo em coisas antigas porque remelexia no meu livrinho para mand�-lo pros semi-finalmentes.
parece mentira, mas n�o �. meus piores poemas - vol. I sai em breve pelas edi��es in-vento, com os piores desenhos de daniel ant�nio.
tirei a maioria dos poemas que nele estavam. coloquei outros que, n�o sei porqu�, nem havia pensado em incluir.
pois bem.
havia l� no livro antigo uma dedicat�ria para eliza. mas fiquei pensando que os tempos mudaram, eu e o livro tamb�m. mudei a dedicat�ria, mas achei que o livro n�o deixava de ser o meu para elisa.
lembrei daquele tempo (que n�o vivi) em que toda mocinha era artista, tocando belamente, para as visitas ou para papai e mam�e, o para elisa na sala-de-estar.
lembrei tamb�m do dia em que o meu fant�stico bolo de cenoura n�o tinha ficado t�o bom. falei do poema da ad�lia lopes, o "sentido do poss�vel", aos comensais insatisfeitos. e s� agora pude constatar que, desdent�o, nunca mais me dignei a fazer a tal quitanda.
no livro antigo tinha uma ep�grafe do chacal. a mesma que ele usou no muito prazer. mas pensei que o tempo, eu e o livro t�nhamos mudado.
voltei a lembrar do poema de donad�lia - para mim aquilo era a ess�ncia dos piores poemas, embora muito bom. e me lembrei de um pior que eu havia feito pensando na portuguesa e que haia escondido entre as p�ginas de um caderno. ele virou a ep�grafe.
o poema da ad�lia ta�. o meu, s� depois: fica muito ruim fora do contexto...
O SENTIDO DO POSS�VEL
De uma vez que tocou o Para Elisa
uma pessoa que estimava deu-lhe os parab�ns
que posso fazer sen�o tocar cada vez melhor
o Para Elisa?
(o mundo ou pelo menos eu tendemos para a perfei��o)
mas uns dias tocava pior
e outros dias n�o tocava t�o bem
e n�o havia uma ordem naquilo
n�o era sempre � quinta vez
que tocava quase t�o bem como daquela vez
o Para Elisa
nem sempre � quinta-feira
ou quando almo�ava br�colos com molho branco
que fazer depois de ter tocado n�o t�o bem
como daquela vez o Para Elisa?
podia pedir desculpa aos vizinhos
(estava sozinha em casa
s� eles se podiam queixar)
(quem lhe tinha dado os parab�ns
tinha deixado de lhe dar os parab�ns)
podia beber chocolate quente para se consolar
ou tomar comprimidos para dormir
ou tomar comprimidos para dormir
com chocolate quente para dormir a consolar-se
com o queixo puxou a tampa do piano
e deixou-a cair sobre os dedos
e foi p�r Hirudoid e ligaduras com carinho
devia evitar o Para Elisa
porque o Para Elisa fazia-lhe mal
(fazer hematomas � fazer mal)
o Para Elisa
devia ter um r�tulo
Perigo de Morte uma caveira um X uma fa�sca
se tivesse sabido n�o tinha tocado pela primeira vez
o Para Elisa
ou tinha tocado sempre n�o muito bem
que posso fazer sen�o continuar a tocar n�o muito bem o Para Elisa?
mas quem lhe tinha deixado de dar os parab�ns
deixou de lhe dar os bons dias

Em vez de destruir as aglomera��es humanas � preciso aperfei�o�-las. Intensificai as comunica��es e as fus�es dos seres humanos. Destru� as dist�ncias e as barreiras que os separam no amor e na amizade. - Marinetti, o que n�o era diarista, em manifesto de 1921, sobre o tactilismo: a arte do tato; a comunica��o espiritual atrav�s da epiderme. * Vanguardas Europ�ias e Modernismo Brasileiro, do Gilberto Mendon�a Teles.
Papel Reclame
Assim tamb�m j� � demais
E eu n�o consigo viver em paz
Ainda existe um por�m
Porque, meu bem,
n�o me meto na vida de ningu�m.
Fazem de mim
Papel reclame
Sem pensar no vexame
Que me possa ferir.
� Deus, castigai os infames
que falam da vida dos outros por a�.
- Nelson Sargento
indica��o da rita
o que � a intimidade da namoradinha do brasil, n�o �, minha gente?
16.8.05
uma luta...
das minhas certezas adolescentes uma certamente jamais me deixar�: madonna faz anivers�rio dia 16/08.
11.8.05
t�lio voltou.
estava vasculhando antigos poemas meus. achei tudo muito engra�ado. consegui me lembrar dos motivos dos poemas... quase sempre sentimentais.
mas bonito aquele tempo. e eu ainda me levava a s�rio.
acho muito engra�ado as pessoas que se levam a s�rio.
mas o mundo precisa � disso, j� dizia de gaule.
abaixo est�o algumas amostras daquele tempo (bom que n�o volta nunca mais).
sobre o nome dos animais
as flores amarelas
crescem devagar
(quando nasce mato
nasce rapidinho)
bicho nasce
do ovo batido
pintinhos nascem
amarelinhos
como as flores:
devagar
......
deve ter uns seis anos que fiz esse poema com minha irm� linda e gorducha. como o tempo passa...
8.8.05
conversa incompleta
As "mulheres girafas" tailandesas t�m seu pesco�o adornado por an�is, fazendo com que ele chegue a ter de 30 a 40 cm. Depois de casadas, se os maridos descobrirem que foram tra�dos, podem retirar um dos an�is. As mulheres morrem asfixiadas.
2.8.05
BHZIP
ainda n�o este ano a bienal internacional de poesia: para 2006.
mas vamos esquentando os tamborins com a Zona de Inven��o Poesia &
05 a 07 de setembro, no Centro Cultural da UFMG.
[j� tenho at� onde comemorar anivers�rio]
mais: jaguadarte, posse de ricardo aleixo.
Gemedeira das Gemedeiras de Salom�
Eu agora vou cantar
durante noites e dias
a hist�ria de Waly,
de suas belas poesias.
Vou cantar rindo e chorando
ai-ai, ui-ui,
seus ecos e algaravias.
Sem aquelas nostorgias,
sem voltar vistas pra tr�s,
ele viu a heran�a herege
e todo mal que ela faz.
Viu que a sua poesia
ai-ai, ui-ui,
era muito mais capaz.
Sendo ele o capataz,
traficou pitanga em chama,
ti�-sangue, cami�o,
(sujou o seu p� na lama),
o sol todo em extin��o,
ai-ai, ui-ui,
horas turvas e suas tramas.
Ele era a sua mucama,
o algoz de suas fronteiras,
diamante em combust�o,
engenheiro de suas beiras
foi tal qual Paul Val�ry,
ai-ai, ui-ui,
fez poema sem poeira.
Foi no canto da sereia
e cantou Yemanj�.
Escreveu cartas abertas.
Pulava de l� pra c�.
Espalmava a m�o na cara,
ai-ai, ui-ui,
para teatraliz�.
Eu agora vou falar
de todos livros do mo�o:
Me segura qu�eu vou dar
um tro�o e pulou no po�o.
Gigol� de bibel�s
ai-ai, ui-ui.
Isso aqui � s� um esbo�o.
Vou tentar roer o osso
e falar do Armarinho
de Miudezas do Waly
e do seu outro livrinho
que � o Algaravias,
ai-ai, ui-ui.
N�o vou sair de fininho.
Sailormoon por seu caminho
descobriu Mel do Melhor,
pagou Tarifa de Embarque,
recusou v�u de fil�.
Gastou cuspe com sua L�bia,
ai-ai, ui-ui,
era fogo no gog�.
E gemendo de dar d�
Vou cantando at� o fim
o Waly de Jequi�
que � exemplo para mim
por ter juntado no verso
ai-ai, ui-ui,
o Xang� com querubim.
Licen�a pe�o pro fim:
Foi t�o bom estar aqui.
� grande a alegria,
Relembrar o Waly,
Encontrar estas pessoas
ai-ai, ui-ui,
Sinceras no aplaud�.
..........
Esta gemedeira foi apresentada no Col�quio Algaravias, na FALE/UFMG, em 2003, durante homenagem ao poeta Waly Salom�o, dirigida por Maur�cio Vasconcelos.
Leo Gon�alves entoou a gemedeira num elegante parangoleo work in progress (se posso cham�-lo assim...)
voc� quer parecer inteligente, mas n�o sabe o que dizer?
o gerador de criticas liter�rias pol�micas foi feito pra voc�
1.8.05
Esc�ndalo e Literatura
... o caso do dinheiro na cueca
[ex-tra�do, como um apaixonado que v� sua ex-mulher com outro, do blog do negr�o]
Um Haicai
Cueca e dinheiro,
o outono da ideologia
do vil companheiro.
� moda concretista
"PT
cueca
cu
PT
eca
peteca
te
peca
cloaca".
� moda Graciliano Ramos
"Parecia padecer de um desconforto moral. Eram os
d�lares a lhe pressionar os test�culos".
� moda Rimbaud
"Prendi os d�lares na cueca, e vinte e cinco anos de
rutilantes empulha��es cegaram-me os olhos, mas n�o o raio-x"
� moda �lvaro de Campos
"Os d�lares est�o em mim
j� n�o me sou
mesmo sendo o que estava destinado a ser
nunca fui sen�o isto: um estelionato moral
na cueca das id�ias v�s"
� moda Drummond
"Tinha um raio-x no meio do caminho,
e agora Jos�?"
� moda Proust
"Acabrunhado com todas aquelas den�ncias e a perspectiva de mais um dia t�o sombrio como os �ltimos, juntei os d�lares elevei-os � cueca. Mas no mesmo instante em que aquelas c�dulas tocaram aminha pele, estremeci, atento ao que se passava de extraordin�rio em mim.
Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem no��o da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente �s vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilus�ria sua brevidade, tal como o fazem a ideologia e o poder, enchendo-me de uma preciosa ess�ncia."
� moda T.S. Eliot
"Que d�lares s�o estes que se agarram a esta imund�cie pelancosa?
Filhos da m�e! N�o podem dizer! Nem mesmo estimam
O mal porque conhecem n�o mais do que um tanto de id�ias fraturadas,
batidas pelo tempo.
E as verdades mortas j� n�o mais os abrigam nem consolam."
� moda Lispector
"Guardei os d�lares na cueca e senti o prazer terr�vel da trai��o. N�o a trai��o aos meus pares, que est�vamos juntos,mas a s�culos de uma cren�a que eu sempre soube est�pida, embora apaixonante. Sentia-me ao mesmo tempo santo e vagabundo, m�rtir de uma causa e seu mais sujo servidor, nota a nota".
� moda L�nin
"N�o escondemos d�lares na cueca, antes afrontamos os fariseus da social-democracia. Recorrer aos m�todos que a hipocrisia burguesa criminaliza n�o �, pois, crime, mas ato de resist�ncia e fratura revolucion�ria. N�o h� bandidos quando � a ordem burguesa que est� sendo derribada. Robespierre n�o cortava cabe�as, mas irrigava futuros com o sangue da rea��o. Assim faremos n�s: o d�lar na cueca � uma arma que temos contra os inimigos do povo. N�o us�-la � fazer o jogo dos que querem deter a
revolu��o. Us�-la � dever indeclin�vel de todo revolucion�rio."
� moda St�lin
"Guarda a grana e passa fogo na cambada!"
� moda Gilberto Gil
"Se a cueca fosse verde como as notas, ter�amos resgatado o sentido de brasilidade impregnado nas cores di�fanas de nosso pend�o, numa sinergia ca�tica com o mundo das tecnologias e dos raios que, diferentemente dos da baianidade, n�o s�o de sol nem das luzes dos orix�s, mas de um aparelho apenas, aleatoriamente colocado ali, naquele momento, conformando uma quase coincid�ncia entre a cultura do levar e trazer numer�rio, t�o nacional, t�o brasileira quanto um poema de Torquato"
� moda Ferreira Gullar
"Sujo, sujo, n�o como o poema
mas como os homens em seus desvios"
� moda Paulinho da Viola
"Dinheiro na cueca � vendaval"
� moda Cam�es
"Eis pois, a nau ancorada no porto
� espreita dos que vir�o d'al�m
na cobi�a da distante terra,
trazendo seus pertences, embarcam
minh'alma se aflige
t�o cedo desta vida descontente"
� moda Guimar�es Rosa
"Notudo. Ficado ficou. Era apenas a vereda errada dentre as v�rias."
� moda Shakespeare
"Meu reino por uma ceroula!!! "
� moda Dr�uzio Varela
" Ao perceber na fila de embarque o cidad�o � frente, notei certa obesidade mediana na regi�o central. Se tivesse me sentado ao seu lado durante o v�o, recomendaria um regime, vexame que me foi poupado pelos agentes da PF de plant�o no aeroporto. Cuidado portanto, nem toda morbidez � obesidade"
� moda Neruda
"Cem mil d�lares
e uma cueca desesperada"
