Dia 03/08, quarta-feira, entrega dos cartazes dos selecionados no concurso arte no �nibus. �s 10h no Museu Ab�lio Barreto.
At�
piores poemas
[extra�do, como um siso, do blog do leo, o salamalandro]
essas tradu��es ganharam "men��o honrorosa" na bienal dos piores poemas, em 2004. parab�ns. os autores? claro, eu, a let�cia f�res e o anderson almeida.
O Mar Portugu�s
Fernando Pessoa
� mar salgado, quanto do teu sal
S�o l�grimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas m�es choraram,
Quantos filhos em v�o rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, � mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma n�o � pequena.
Quem quer passar al�m do Bojador
Tem que passar al�m da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele � que espelhou o c�u.
.................
Omar, Portugu�s
Mar Morto, Mar Mita, Mar Mota
Omar Salgado, quanto do teu sal
Veio salgar meu bacalhau!
Por nos cruzarmos, quantas m�es choraram,
Quantas noivas na m�o ficaram!
Quantas mo�as est�o a navegar
Para que fosses o meu Omar!
Foi bom pra voc�? Se a sardinha n�o for pequena
Ainda vale a pena!
Quem quer passar a m�o no beijador
Tem que pegar no trovador.
Dei, Omar, para o Pedrinho e pro Francisco dei,
Mas como voc� jamais provei.
.......................
Alma minha gentil, que te partiste
Luiz Vaz de Cam�es
Alma minha gentil, que te partiste
T�o cedo desta vida, descontente,
Repousa l� no C�u eternamente
E viva eu c� na terra sempre triste.
Se l� no assento et�reo, onde subiste,
Mem�ria desta vida se consente,
N�o te esque�as daquele amor ardente
Que j� nos olhos meus t�o puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alg?a cousa a dor que me ficou
Da m�goa, sem rem�dio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que t�o cedo de c� me leve a ver-te,
Qu�o cedo de meus olhos te levou.
.....................
� maminha gentil, que te partiste
Para Glauco Mattoso
Cecil B. DeMilus, Sophia DuLoren, Laurinha Trifil
� maminha gentil, que te partiste
T�o cedo deste corpo adolescente,
Lembra da tua irm�, discretamente,
E viva eu aqui, sem ti, em riste.
Se l� no lado esquerdo j� ca�ste
E sonhas em voltar aqui pra frente,
E com vergonha a sua dona, deprimente,
N�o tem como esconder e fica triste.
E se ainda quiseres reerguer-te
Pois arranjes refor�ado suti�.
Dou-te com bondade esse macete.
� de gra�a. Mas j� sei, ca�da irm�,
Que por enquanto s� vou ver-te
Indo � puta-que-pariu de rolim�
30.7.05
vejam... o castanho � o que h�...
26.7.05
o m�ximo das m�ximas
neste fim de semana vi na rede minas um document�rio sobre o bar�o de itarar�, "o m�ximo das m�ximas".
engra�ado como frases que eu tinha como dito popular s�o inven��es do bar�o: "em briga de marido e mulher n�o metas a colher", "pobre s� vai pra frente quando empurrado", entre outras. mas o que mais me fascinou foi uma hist�ria sobre o bar�o, contada por leandro konder, que reproduzo aqui, de mem�ria.
o bar�o foi preso durante a ditadura de vargas. quando perguntado pelo juiz se sabia do motivo de sua pris�o, disse que sabia sim. que o motivo era o cafezinho.
- cafezinho?
- �. desde pequeno gostava muito de tomar cafezinho e minha m�e sempre dizia que era pra eu ter cuidado com aquilo, que muito cafezinho n�o ia me fazer bem. pois certo dia, justo quando eu me preparava para tomar o meu d�cimo cafezinho a pol�cia entrou na reda��o e disse que eu seria levado preso. imediatamente eu percebi que o culpado daquilo era o cafezinho.
...
n�o poderia deixar de citar aqui um l�pis de mem�ria (conhecido como "lagoinhas" por paulavon) nos meus idos de vendedora de livros.
o cliente perguntou se t�nhamos livros do bar�o de itarar�. n�o sei por que cargas d'�gua liguei o itarar� a algum som a�reo e disse que n�o, n�o t�nhamos livros daquela �rea. o cliente me olhou espantado e entre um malentendido e outro acudiu: n�o, o bar�o de itarar� n�o era nenhum patrono da aeron�utica.
hoje n�o posso deixar de pensar que o tal do apar�cio deve ter dado boas gargalhadas l� de cima.
as portuguesas afiadas
tenho encontrado muitos blogs portugueses nessas minhas andan�as virtuais... e inexplicavelmente a maioria dos autores s�o na verdade autoras, exceto um ou outro, como o poeta (angolano, pois n�o?) valter hugo m�e.
peguei-me a sorrir pensando que as portuguesas s�o afiadas mesmo. ironia afiada. gosto disso.
e sorrio tamb�m sentindo o estranhamento da l�ngua: quase a mesma e com a linguagem/paisagem muito diferentes.
ent�o, quando puderem, d�em uma olhada no azul lim�o e no blog da ale (coloquei um link aqui h� poucos dias). l� voc�s encontram v�rios links de portuguesas de respeito.
e aproveito para colocar aqui um poema que a e-limonada me fez lembrar. da ad�lia lopes. ta�.
UM FIGO
Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atr�s dela
para lhe entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
porque isto n�o � meu
n�o queria que ningu�m
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma rela��o
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um len�o cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo � boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
� um retrato da senhora
pode ser o retrato de algu�m muito parecido comigo
mas n�o sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
n�o insistiu
e como sabia que os mendigos
n�o t�m dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo
23.7.05
19.7.05
indica��o de c�ntia fran�a
problemas conjugais mau-olhado e hermen�utica.
confidencialidade absoluta.
crises de identidade bovary, resolu��o em 24 horas.
fazemos domic�lio.
t� l� no moro aqui, ex-torneiras de freud
Leio Jo�o Cabral e vou pouco concordando com as opini�es sobre ele que sempre encontro por a�. Para mim, a obsess�o formal a que o poeta pernambucano se imp�e n�o chega � impessoalidade, como dizem. � certo que ele n�o � afeito a arroubos e a subjetividades - � f�cil perceber. O formalismo, o comedimento, a avers�o a solu��es f�ceis, aparecem como um gesto de amor, um cuidado com a mat�ria que est� sendo trabalhada. Mat�ria fr�gil que o poeta n�o exp�e, incrusta cada vez mais na pedra. Mas de alguma forma � nesse jogo de esconde-esconde que a beleza do poema se revela. Como se, desviando-se da poesia, o poeta a cercasse por todos os lados, mostrando-nos seu contorno. E aproveito a ambig�idade do �seu� para me referir tamb�m ao poeta.
N�o estou querendo aqui escrever algo acad�mico sobre o Jo�o Cabral. Eu s� queria dizer que a poesia dele n�o � t�o carrancuda como sempre dizem por a�. No meio dessas pedras que ele coloca para atravancar nosso caminho, � poss�vel encontrar um certo humor, ou melhor, uma ironia certeira. Acredito que a dificuldade que colocam como obst�culo para a leitura de Jo�o Cabral s� serve para encarcerar a poesia dele entre os muros de certa elite intelectual. � s� levar um cantil para a travessia: a paisagem � linda.
E a� abaixo - pra n�o dizer que n�o falei de flores - vai um poema do supracitado (sempre penso em supra-excitado quando leio isso...) e, mais abaixo ainda, outro, s� que do Waly, o Salom�o.
Agradecida.
D�vidas Ap�crifas de Marianne Moore
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na sele��o dessas coisas
n�o haver� um falar de mim?
N�o haver� nesse pudor
de falar-me numa confiss�o,
uma indireta confiss�o,
pelo avesso, e sempre impudor?
A coisa de que se falar
at� onde est� pura ou impura?
Ou sempre se imp�e, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?
Como saber, se h� tanta coisa
de que falar ou n�o falar?
E se o evit�-la, o n�o falar,
� forma de falar da coisa?
- t� no Agrestes.
Lausperene
Quase qualquer antologia
da atual poesia nacional:
seq��ncia segue seq��ncia
de poema-piada
e pseudo-haicai.
Ou o pior de tudo
e o mais usual:
brevidade-n�o concis�o
brevidade-camuflagem
de poema travado
engolido pra dentro.
Belo � quando o seco,
r�gido, severo
esplende em flor.
Seu nome: Cabral.
Nome de descobridor.
- do Algaravias.
18.7.05
CORA��O LOGRADO
Meu cora��o baba na popa
Triste e cheirando a caporal
V�m-lhe jogar jatos de sopa,
Meu cora��o baba na popa:
Sob os apupos dessa tropa
Que lan�a risos em geral,
Meu cora��o baba na popa,
Triste e cheirando a caporal !
Itif�licos, soldadescos,
Foi por insultos depravado!
Fazem, chegando a tarde, afrescos
Itif�licos, soldadescos.
Fluxos abracadabrantescos,
Salvai meu cora��o coitado:
Itif�licos , soldadescos,
Foi por insultos depravado!
Quando mascar n�o possam mais,
Como agir, cora��o logrado?
Ser�o refr�es de bacanais,
Quando mascar n�o possam mais:
Crises terei estomacais
Se o cora��o for degradado:
Quando mascar n�o possam mais,
Como agir, cora��o logrado?
- Rimbaud, trad. Ivo Barroso
A miss�o do poeta, se assim podemos cham�-la, � escrever poesia. Sua simples exist�ncia � um ato de resist�ncia contra a desumanidade cada vez maior que estamos padecendo.
- Juan Gelman, em entrevista a Leo Gon�alves e Andityas Soares de Moura. SL fev. 2005.
LISTA #1
M�SICAS DO QUE N�O SE DIZ
- correria de dunas
- rumor das folhas do desejo
- modo de estalar os dedos
- farfalhar de saias pelas escadas
- retumbar de pedras e manadas
- lava borbulhando sob a terra
- minha cabe�a j� pelas tabelas
- tremor de pernas na Mal�sia
- esta espuma de sil�ncios arredios
- o mar que m�i o vento
- palavra s�nica de avi�es
- rel�mpagos ou harmonia para um olhar
11.7.05
7.7.05
Flores do mais
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imedia��es constru�das
pelos furac�es;
devagar me�a
a primeira p�ssara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das mar�s;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
pe�a mais
e mais e
mais
Flores do Mais, Flores do Mal
O poema �Flores do mais�, do livro p�stumo de Ana Cristina Cesar, In�ditos e Dispersos, parece uma li��o de poesia, uma esp�cie de ars poetica onde s�o explorados temas que ecoam por toda a obra da poeta. A tens�o entre a confiss�o e a fic��o - e um certo erotismo que surge a partir dessa fric��o. A palavra como sedu��o. O jogo entre poeta/ leitor como uma esp�cie de flerte, algo como um �decifra-me ou devoro-te�, que se desdobra infinitamente. O poema constru�do como uma teia para seduzir o leitor, esp�cie de voyeur, �vido para saber a verdade do poema e do poeta. Contudo, o eu-l�rico, muito bem arquitetado, consegue fugir sempre, entremeando-se � multid�o, discreto.
Essa multid�o em que Ana Cristina Cesar se esconde e observa n�o � apenas a dos passantes sem nome, como no conto de Edgard Allan Poe. Ou melhor, a poeta aparece como uma flaneuse que destitui as indentidades ao mesclar v�rios g�neros e discursos. Uma esp�cie de olhar inaugural sobre o mundo (devagar imprima/ o primeiro/ olhar/ sobre o galope molhado/ dos animais;�), re-significando-o, � sua maneira - a �festa do intelecto�, de que fala Paul Verlaine. Charles Baudelaire*, Sylvia Plath** (dois poetas que tamb�m s�o marcados pela tens�o entre o rigor formal e a emo��o, pelos temas da morte, do horror, do desconhecido, e do amor), o fazer po�tico, o cinema, o discurso amoroso, tudo isso se dissolve, se torna an�nimo, quando transportado para uma outra pequena multid�o, o poema.
�Flores do mais� poderia ser dividido em pequenos takes, lembrando um passeio em Super Oito. Em slow motion. Ou flashes de uma escrita que se constr�i sobre um vazio, sobre algo que n�o � mais, constru�do a partir de sua pr�pria desconstru��o - as �imedia��es constru�das/ pelos furac�es;�. E que, embora queira ser uma outra via, uma outra voz, n�o pode prescindir da letra, a escrava do poeta - ou seria o contr�rio? -, para se reinventar.
No poema s�o tecidas imagens que relacionam o fazer po�tico � proximidade com o horror, com a morte, com o indiz�vel. Um poema que se lan�a vertiginosamente ao abismo, num ritmo lento, cuidadoso. Sempre insatisfeito, em busca de algo al�m. O "mal" instaurado. Lan�ado na p�gina como num jogo de sedu��o.
* Baudelaire � aqui citado devido � clara alus�o que h� ao seu livro Flores do Mal no t�tulo do poema de Cesar.
**"Flores do mais" parece ter uma estreita rela��o com o poema "Words", de Plath, j� traduzido por Ana Cristina Cesar.
3.7.05
"N�o se escreve com as pr�prias neuroses. A neurose, a psicose n�o s�o passagens de vida, mas estados em que se cai quando o processo � interrompido, impedido, colmatado. A doen�a n�o � o processo, mas a parada do processo, como 'no caso Nietzsche'. Por isso o escritor, enquanto tal, n�o � doente, mas antes m�dico, m�dico de si pr�prio e do mundo. O mundo � um conjunto de sintomas cuja doen�a se confunde com o homem. A literatura aparece, ent�o, como um empreendimento de sa�de: n�o que o escritor tenha for�osamente uma sa�de de ferro (...) mas ele goza de uma fr�gil sa�de irresist�vel, que prov�m do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespir�veis, cuja passagem o esgota, dando-lhe contudo devires que uma gorda sa�de tornaria imposs�veis. Do que viu e ouviu, o escritor regressa com os olhos vermelhos, com os t�mpanos perfurados. Qual sa�de bastaria para libertar a vida em toda parte onde esteja aprisionada pelo homem e no homem, pelos organismos e g�neros e no interior deles?"
- Deleuze, Cr�tica e Cl�nica.
em tempos como estes
The Firebombers
We are America.
We are the coffin fillers.
We are the grocers of death.
We pack them like cauliflowers.
The bomb opens like a shoebox.
And the child?
The child is certainly not yawning.
And the woman?
The woman is bathing her heart.
It has been torn out of her
and because it is burnt
and as a last act
she is rinsing it off in the river.
This is the death market.
America,
where are your credentials?
Os Bombardeiros
N�s somos a Am�rica.
N�s somos os fornecedores de cad�veres.
N�s somos os merceeiros da morte.
N�s os amontoamos em caixotes como couve-flor.
A bomba se abre como uma caixa de sapato.
E a crian�a?
A crian�a certamente n�o est� bocejando.
E a mulher?
A mulher est� lavando seu cora��o.
Ele foi arrancado dela
e porque ele foi queimado
e como um �ltimo ato
ela o enx�gua no rio.
Este � o mercado da morte.
Am�rica,
onde est�o suas credenciais?
- o poema � da Anne Sexton, The Book of Folly. a tradu��o, de C�ntia Fran�a e euzinha aqui.
o que � poesia?
ontem, jogando "perfil", fomos surpreendidos por uma ficha, com a seguinte dica:
as tatu�ras moram em mim.
fiquei pensando que bem que poderia ser um verso isso. do manoel de barros, claro.
1.7.05
Essa velocidade de pensamento, de que o cinema nos d� o registro e a medida que explica em parte a est�tica da sugest�o e da sucess�o, � encontrada tamb�m na literatura. Em alguns segundos, � preciso for�ar a porta de dez met�foras, sen�o a compreens�o se perde. Nem todo mundo pode acompanhar; as pessoas de racioc�nio lento est�o sempre em atraso, na literatura como no cinema, e bombardeiam o vizinho com perguntas.
- Jean Epstein, O Cinema e as Letras Modernas
acho que ainda n�o coloquei o link aqui... tsctsctsc...
vejam l� no palavra sem nome: lenise regina, a rainha da bateria, e os respingos de arthur.




