28.6.04

penso em lua. escorrego por entre as notas de milonga del �ngel. um tango num dia frio. olho para a foto e voc� come pan del progresso com um desses homens-est�tuas sobre a sua cabe�a. penso tamb�m que eu posso me metamorfosear em seres, em seios, bandon�ones, gestos rarefeitos. que se esvaem como seu corpo que escorrega pelos meus dedos. a lua em forma de barca. a barca dos amantes, sempre penso, sempre penso. sempre penso em voc� enquanto mi coraz�n estala na curva do tempo.

27.6.04

O primeiro beijo Ela ficou de p� a meu lado. Eu a fitei at� o fundo d'alma e segurei-lhe os pulsos. Fechando os olhos, ofereceu-me as faces. Contentar-se-� com frutos o viajante sedento, tendo perto de si uma fonte? Enfim nossos l�bios se uniram e todo o seu corpo de encontro ao meu n�o foi mais que uma boca. (O jardim das car�cias, trad. Adalgisa Nery)

era uma casa muito engra�ada chamilly chegou com iai�, a gata siamesa e branca. iai� n�o mia: pia. � uma gata-passarinho. l�ri, a gata da casa, virou uma cobra naja, arrepiada nos seus ci�mes. mariana n�o chia nem pia. nem pensa nos problemas do mundo enquanto os dias passam nos bra�os do seu cavaleiro de fran�a.

Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intrasitivo:
Te adoro,Teodora.

25.6.04

mariana agora tem aulas de franc�s com um professor bastante particular

22.6.04

chamilly n�o permitiu que mariana lesse as cartas. "se voc� quer me ler, h� modos melhores para isso". rasgou-as em peda�os milim�tricos. ateou fogo. n�o �s vestes, que isso fique bem claro. colocou um disco na eletrola. aumentou o volume. um tango do piazzola.

20.6.04

happy end chamilly chegou a passos lentos, longa viagem invernal at� beja. "antes tarde do que nunca", mariana pensou. n�o eram as testemunhas de jeov�. n�o era a publicidade. era simplesmente chamilly apaixonado. trazia na mala todas as cartas que escrevera a mariana. e que, fatalmente, o carteiro esquecera no meio do caminho.

fragmentos de um discurso - eu ando com a cabe�a em excelentes lugares bonitos

18.6.04

A AUTORA ACOSSADA para ler ao som de ne me quitte pas, com maysa encosto a cabe�a no vidro do �nibus e quest�es profundas, profund�ssimas, ali�s, v�m num curto espa�o de tempo... um anjo ca�do ao sol do meio-dia. o s�timo selo que n�o cola no envelope quando passo a l�ngua. desisto: xeque-mate. intoler�ncias factuais: rei afogado no flanco da dama por amor. fa�o meus abdominais ao acordar porque tentei tanto, tanto, me livrar dessa coisa de literatura & psican�lise: os abdominais s�o a �nica coisa que me resta. sempre tanto complexo de �dipo nesse mundo, meu deus. fico aqui pensando. rememorando, ali�s. quando eu era pequena. pequena assim, desse tamanho, mam�e sempre dizia, me lembrava, me alertava, me oprimia enquanto eu tomava meu enorme sorvete de chocolate. �olha, minha filha, muito cuidado com o vestido. o sorvete est� derretendo. minha filha, olha: foi assim que blanchot manchou o maillot de cocteau�. e eu imaginava: um maillot branco, lindo, c�s nem imaginam como � que era cocteau de maillot blanchado no meu pensamento. porque uma mancha feita por blanchot n�o � uma manchinha qualquer n�o, n�? era o Canal da Mancha no maillot de cocteau. ent�o, acho que foi por isso. acho que foi assim que comecei com esse neg�cio de literatura e morte e passei a usar boina: n�o consigo me desapegar desses costumes franceses. desse len�o em volta do pesco�o. na verdade eu queria mesmo era uma echarpe como a de Isadora. mas aqui nesses pa�ses mais quentes, �zona tropical�, mam�e me corrigia sempre, n�o se encontram dessas echarpes enormes n�o. aqui o neg�cio t� � pra menor, pra bon� e biqu�ni mesmo. mas at� agora n�o consegui, n�o consegui ainda me libertar desse trauma. mam�e dizia sempre: �minha maillot chocolate filha mancha vestido cuidado cocteau�... e � por isso que n�o uso biqu�ni, sabe?, que eu uso sempre maillot. n�o � exatamente blanchado, mas serve em mim, fica bonito assim, me sinto uma isadora duncan se lan�ando � morte. t� pensando o qu�? sou osso duro, meu n�go. a obra me d� um chega pra l�, mas ag�ento firme, t� sabendo? com as unhas cravadas na rocha, sangrando, � beira do precip�cio. comigo n�o tem dessa n�o, quer ficar sozinha, eu deixo, mas depois vai ter que me ag�entar de novo. ad infinitum de maillot blanchado. e � de maillot blanchado que eu vou mergulhar na noite e sumir com o meu olhar. mas muito me indigna que ningu�m tenha notado que estou gordad demais pra usar maillot blanchado. ainda que as rotas da devassid�o se encontrem com o meu corpo dilacerado remoendo a obra ainda que eu siga a perversidade da solid�o que me rejeita ainda que eu lute at� o fim correndo at� � obra que ultrapassa a minha exist�ncia � mam�e! mam�e! quem sempre teve raz�o: T� MUITO GORDAD PRA USAR MAILLOT BLANCHADO

16.6.04

um c�ntaro e �guas vazadas por peixes verdes: meu n� de marinheiro que nunca se desfaz: n� de marinheiro cego que n�o olha por onde pisa, por onde chega ou se ainda alcan�a. piso na ponta dos meus dias frios, no cume da cordilheira dos meus andes. ensaio um sinal fechado, um raio vazado no lume vazio. acendo p�talas ao vento, um fogo farto - insond�vel medida esses meus olhos que te espraiam, espreitam e passam bilhetes em branco por baixo da porta.

sal�o de blz - voc� � inteligente? - n�o, n�o... s� os �culos e a cara de s�ria... n�o se preocupe, � s� g�nero... n�o leve a s�rio... sou inteligente n�o... - ah, t�...

12.6.04

6.6.04

- que horas s�o? - dez pra nunca mais.

o ex�rcito est� na rua, meu bem. aproveito para deixar meu cora��o de molho, armada at� aos dentes, esperando voc� voltar dessa viagem. invento frases de efeito, religiosamente, �s sete da manh�. como se o mundo fosse surdo e meu cora��o ardesse em brasa. ou de olhos lacrimejantes e t�mpanos estourados, amanhe�o. mas nem sempre tudo t�o mentira, esse meu amor que n�o te olha. que te segue a passos lentos. na calma do descompasso.

LXXIV Para tua fome Eu teria colocado meu cora��o Entre os ciprestes e o cedro E tu o encontrarias Na tua ronda de luta e incoes�o: A ronda que te persegues. Para a tua sede As nascentes da inf�ncia: Um molhado de fadas e sorvetes. E abriria em mim mesma Uma nova ferida Para tua vida. (Hilda Hilst, Do Amor)

t�lio, interrogava-me quanto a tua volta. voltaste. revoltaste-me.

5.6.04

uma certa saudade e voc� em Sri Lanka, bancando o Rimbaud

3.6.04

IX. Exdruxularias de um Amor Penitente Neste s�, nestas brenhas aonde n�o chega a m�sica da voz de Dulcin�ia que por mim n�o suspira e mal sabe que existo, vou fazer penit�ncia de amor. Vou carpir minhas penas, vou comover as rochas com lav�-las de l�grimas, vou romp�-las de grito, ensandecer as �guias, cativar hipogrifos e acarinhar serpentes, vou arrancar minhas vestes de ferro e de grandeza e sacar os cal��es e de g�mbias de fora, documentos do sexo cinicamente � mostra para que aves e plantas desfrutem o espet�culo, farei micagens mil, plantarei bananeira e darei cambalhotas, saltos mortais, vitais de amor de amor de amor. (Drummond, Quixote e Sancho, de Portinari)

2.6.04

- emengarda, segura a minha m�o e diz que n�o est� com medo.

primavera a primavera � quando ningu�m mais espera a primavera � quando n�o a primavera � quando do escuro da terra ascende a m�sica da paix�o a primavera � quando ningu�m mais espera e desespera tudo em flor a primavera � quando ningu�m acredita e ressuscita por amor (z� miguel wisnik)