19.5.04

Carta an�nima Para ler ao som de Melodia Sentimental, de Villa-Lobos, cantada por Ol�via Byngton Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em voc�. Mais de tardezinha que de manh�, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais for�a enquanto a noite avan�a. N�o s�o pensamentos escuros, embora noturnos. T�o transparentes que at� parecem de vidro, vidro t�o fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de voc�. Se n�o dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os len��is. Brilham, na palma da minha m�o. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde tamb�m tem uma ilha. N�o, n�o: acho que a ilha mora num caquinho s� dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas s�o sempre bonitas. Parecem filme, livro, quadro. N�o doem porque n�o amea�am. Nada que eu penso de voc� amea�a. Durmo cedo, nunca quebra. Da� penso coisas bobas quando, sentado na janela do �nibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabe�a na vidra�a e penso demais em voc�. Quando n�o encontro lugar para sentar, o que � mais freq�ente, e me deixava irritado, agora n�o, descobri um jeito engra�ado de, mesmo assim, continuar pensando em voc�. Me seguro naquela barra de ferro, olho atrav�s das janelas que, nessa posi��o, s� deixam ver metade do corpo das pessoas pelas cal�adas, e procuro nos p�s delas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus p�s, lembro). E fico t�o abalado que chego a me curvar, certo que s�o mesmo os seus p�s parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo voc� - seria, seriam? Boas e bobas, s�o as coisas todas que penso quando penso em voc�. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com voc� que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crian�as pregam uma nas outras. Finjo que me assusto, voc� me abra�a e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortel� ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em voc� e o telefone toca e corta meu pensamento e do outro lado do fio voc� me diz: estou pensando tanto em voc�. Digo eu tamb�m, mas n�o sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito poder de parecer rid�culos melosos piegas bregas rom�nticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso tamb�m que somos mesmo meio tudo isso, n�o tem jeito, e tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, � fr�gil como a voz de Bianca Byngton cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagall que Van Gogh, mais Jarmush que Wim Wenders, mais Cec�lia Meireles que N�lson Rodrigues. Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em voc�. Brotam espa�os azuis quando penso. No meu pensamento, voc� nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodram�tico, e penso ent�o tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabe�a no seu colo ou voc� deita a cabe�a no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulc�es explodem e pestes se alastram e n�s nem percebemos, no umbigo do universo. Voc� toca na minha m�o, eu toco na sua. Demora tanto que s� depois de passarem tr�s mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e � ent�o feito mergulhar numas �guas verdes t�o cristalinas que t�m algas na superf�cie ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro p�rolas. Sei que � meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em p� no �nibus solto um pouco as m�os daquela barra de ferro para meu corpo balan�ar como se tivesse � bordo de um navio ou de voc�. Fecho os olhos, faz tanto bem, voc� n�o sabe. Suspiro tanto quando penso em voc�, chorar s� choro �s vezes, e � t�o freq�ente. Caminho mais devagar, certo que na pr�xima esquina, quem sabe. N�o tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em voc� que na hora de dormir vezenquando at� sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no l�bulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espa�os azuis, p�rolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo. (Caio Fernando Abreu)