22.4.04

Do concretismo ao poema processo A d�cada de 50 foi marcada, no �mbito social, pol�tico e econ�mico, por uma s�rie complexa de transforma��es que insinuavam o perfil de uma �nova modernidade�, que fornecia um ambiente estimulante para o desenvolvimento de sugest�es renovadoras nas artes. Por volta da metade inicial dessa d�cada, apareceram as primeiras manifesta��es do que viria a ser a arte concreta no Brasil. De um lado, o grupo paulista Noigandres, com D�cio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, e, de outro, o grupo Ruptura, formado pelos pintores e escultores Geraldo Barros, Waldemar Cordeiro, Lothar Charoux, Kazmer Fejer, Haar, Sacilotto e Wladyslaw. As posi��es defendidas por esses artistas coincidiam com muitas das formula��es dos poetas de Noigandres. Em nome de uma intui��o art�stica dotada de princ�pios claros e de grandes possibilidades de desenvolvimento pr�tico, o ideal pl�stico do grupo Ruptura privilegiava a organiza��o das formas e das cores, desvinculada de conte�dos extrapict�ricos. Desse mesmo modo, a poesia concreta se afastava de suportes sem�nticos e sint�ticos, assentando-se numa organiza��o geom�trico-estrutural do espa�o. Influenciados pela experi�ncia construtivista, que tinha como par�metros o neoplasticismo de Mondrian e Vatergerloo, o suprematismo de Mal�vitch e as concep��es est�ticas de Theo Van Doesburg, as propostas de Max Bill e seus companheiros da Escola de Ulm, os artistas do grupo Ruptura atuaram ao lado dos poetas concretos na pesquisa de novas linguagens e formas de express�o. Com o grupo Noigandres, emergiria, entre 1953 e 1956, o movimento da poesia concreta. Tomaram parte, no movimento, poetas de S�o Paulo e do Rio de Janeiro, al�m do poeta maranhense Ferreira Gullar e do poeta mato-grossense Wlademir Dias-Pino. A poesia concreta � a denomina��o de uma pr�tica po�tica, formulada por te�ricos brasileiros e su��os, que tem como caracter�sticas b�sicas a aboli��o do verso; a organiza��o do poema segundo crit�rios gr�ficos que enfatizam a materialidade da palavra, seus valores pl�sticos e sonoros (verbivocovisual); a elimina��o ou rarefa��o dos la�os do discurso em prol de uma conex�o mais direta entre palavras ou frases; e a integra��o das linguagens verbal e n�o-verbal, palavra e imagem. Tal pr�tica concentra e radicaliza propostas anteriores que percorreram os movimentos de vanguarda do in�cio do s�culo, como futurismo e dada�smo, retomados no in�cio dos anos 50, com o rigor construtivista. Tem como grande antecessor o poema espacial de Mallarm�, Un coup de d�s, al�m de Ezra Pound que, com a utiliza��o do m�todo ideogr�mico em seus Cantos, rompe com a l�gica anal�tico-discursiva ocidental, e ainda James Joyce, com Finnegans wake, uma obra inesgot�vel, poliss�mica e polim�rfica. Esse movimento apresenta algumas correntes: o concretismo paulista do grupo Noigandres, que estrutura o espa�o pelo arranjo geom�trico da composi��o verbal; Wlademir Dias-Pino, utilizando um espa�o funcionalizado como refer�ncia f�sica para a substitui��o da palavra por signos visuais; e Ferreira Gullar, com o espa�o como dado emp�rico e simb�lico. Em fins da d�cada de 50, Ferreira Gullar rompia com o concretismo, inaugurando o neoconcretismo. O neoconcretismo indicou uma tomada de posi��o em rela��o � arte n�o-figurativa �geom�trica� (neoplasticismo, construtivismo, suprematismo, escola de Ulm) e, particularmente, em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerba��o racionalista. No campo da pintura, escultura, gravura e literatura, os artistas neoconcretos encontram-se na conting�ncia de rever as posi��es te�ricas adotadas at� ent�o pela arte concreta. O neoconcretismo, nascido de uma necessidade de exprimir a complexa realidade do homem moderno dentro da linguagem estrutural da nova pl�stica, nega a validez das atitudes cientificistas e positivistas em arte e rep�e o problema da express�o, incorporando as novas dimens�es �verbais� criadas pela arte n�o-figurativa construtiva. Abrindo um novo campo para as experi�ncias expressivas, o neoconcretismo recupera a linguagem como fluxo, na tentativa de superar suas conting�ncias sint�ticas e reafirmar a independ�ncia da cria��o art�stica em rela��o ao conhecimento pr�tico (moral, pol�tica, ind�stria, etc). Tamb�m decorrente do concretismo, o poema processo foi uma vanguarda que se inaugurou em 1967, com resson�ncia em diversos pontos do Brasil. Desenvolvido no per�odo de 1967 a 1972, o poema processo tratou da explora��o planificada das possibilidades encerradas nas cadeias de signos, dando m�xima import�ncia � leitura do processo do poema, e n�o mais � leitura alfab�tica, verbal e de significantes. Propondo o combate � discursividade e � poesia tipogr�fica concretista, visa poemas sem palavras ou, pelo menos, poemas em que o signo verbal ocupe um lugar de import�ncia secund�ria para atingir, ent�o, uma linguagem universal de comunica��o. O n�cleo de cria��o do poema reside em seu processo; assim, a partir de uma matriz geradora de s�ries, o poeta prop�e o desencadeamento cr�tico de estruturas sempre novas, as vers�es do processo. Desse modo, essa vanguarda assume um compromisso consciente e objetivo contra a imobilidade das estruturas e pela inven��o de novos processos. Segundo Neide de S�, poeta co-fundadora do movimento, a correla��o do processo com o tempo n�o envolve a linearidade, mas uma din�mica do imprevisto. Sem come�o ou fim, o processo se desenvolve em diversas dire��es, abrindo uma quantidade de encadeamentos que se realizam simultaneamente. A transforma��o, o movimento, ou a participa��o � que levam a estrutura (matriz) � condi��o de processo. Dessa forma, o poema processo cria um consumidor/participante/criativo, que deixa de ser um espectador passivo, contemplativo, para tornar-se um explorador das probabilidades do processo. Segundo Wlademir Dias-Pino, tamb�m co-fundador do movimento, o poema processo, ao dissociar a poesia (estrutura) do poema (processo), separa definitivamente o que � l�ngua de linguagem dentro da literatura. Assim, consciente diante de novas linguagens, esse movimento, ao dar import�ncia m�xima � leitura do processo, atinge uma linguagem universal pelo sentido da funcionalidade de uma comunica��o internacional. mais processo - blogs do moacy cirne poema/processo balaio vermelho